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“Morte e morrer nas colônias alemãs do Rio Grande do Sul – Recortes do Cotidiano”
Dom, 13 de Novembro de 2016 16:55

Percepção da morte nas colônias

Obra trata de rituais fúnebres e expressões públicas do luto nas regiões de colonização alemã no RS.


No final do ano de 2015 foi lançado o livro “Morte e morrer nas colônias alemãs do Rio Grande do Sul – Recortes do Cotidiano”, autoria do pesquisador e historiador Sandro Blume. Ele propõe uma análise das atitudes perante a morte, verificando as mudanças e as permanências nos rituais fúnebres e na expressão pública do luto entre imigrantes alemães e seus descendentes no sul do Brasil.

O autor analisou, no espaço temporal entre 1848/64 até 1937, registros paroquiais, correspondências de imigrantes, necrológios, epitáfios constantes nas lápides dos cemitérios, bem como fotografias mortuárias. A partir dessas fontes, ele verificou as preocupações com os preparativos para o enfrentamento da morte, os meios empregados nas tentativas de salvação da alma, do bem morrer e as inquietações com o pós-morte no cenário teutorio-grandense.

Cemitérios de imigrantes e de seus descendentes são centros de preservação da memória comunal. Quando da instalação das picadas, com a chegada dos primeiros imigrantes alemães em 1824, caminhos surgidos a partir das penetrações feitas na floresta subtropical com machados e facões e ao longo dos quais foram instaladas famílias de imigrantes, a primeira instituição comunitária foi, sem dúvida, o cemitério.

Os ritos e os costumes fúnebres nas regiões de imigração alemã

Unidades de convivência humana, as picadas contaram por muito tempo sua história a partir dos cemitérios. Um exemplo disso é a fotografia (ao lado) que mostra as pessoas enfileiradas, aguardando a passagem do cortejo fúnebre, já em frente à entrada do cemitério. Nela, a preocupação do fotógrafo August Hendges foi mostrar o costume existente na região de São José do Herval, nos primeiros anos do século XIX. Em alemão, a expressão utilizada para descrever a postura dos presentes ao sepultamento é “spalier stehen”, que pode ser traduzida por “formar ala”. O caixão era carregado entre as duas alas, antes de entrar no chamado “campo santo”. Era essa uma forma de expressar reverência e respeito em relação ao morto. Esse e outros costumes foram retratados através das lentes do fotógrafo.

Com o advento da fotografia, no Brasil, ao final do século XIX e início do XX, os profissionais desta arte começaram a produzir fotografias com temáticas diversas, retratos de pessoas e paisagens naturais ao crescimento e modernização dos grandes centros urbanos. Porém, um aspecto que chama a atenção na pesquisa de Sandro Blume é o costume que se estabeleceu de fotografar as pessoas mortas.

A fotografia nos rituais de morto como preservação da memória dos entes queridos

No Rio Grande do Sul, o hábito de fotografar os mortos teve a iniciativa dos imigrantes europeus, fazendo parte da bagagem cultural trazida por imigrantes italianos e alemães. Essa cultura carregava as tradições das sociedades europeias que, na busca pela preservação da memória dos mortos, havia introduzido a fotografia nos rituais da morte.

Conforme a fotografia, percebe-se que um cenário de simbologias e suportes iconográficos foi preparado não somente para o momento do derradeiro retrato, mas também composto para o velório, considerado apropriado para esta finalidade na época. A vela acesa, o crucifixo, as flores, uma cruz maior adornada de flores, além de imagens de Nossa Senhora, do Menino Jesus e do Sagrado Coração de Jesus fazem parte desse cenário. Deitada em meio às flores dentro do pequeno caixão, uma criança de vestes brancas, com uma tiara na cabeça, está com as mãos cruzadas em oração.

“Possivelmente, tais fotografias também indicavam a importância do morto e de sua família na comunidade”, salienta Blume. A carga de elementos simbólicos, atrelados à importância do morto e da família do morto na sociedade, ficam perceptíveis em fotografias como a que retrata o corpo de Cristina Schardong Ternus (pág. 246, do livro), senhora que deu à Igreja Católica dois filhos padres. (Nota: a foto integra álbum da família de Afonso Ignácio Rohr, por longos anos agente do Correio Riograndense em Picada Café).

A devota comunidade de Picada São Paulo, por ocasião do velório dela, literalmente parou, visando as últimas homenagens. Conforme o autor do livro, certamente, a maioria dos católicos locais e das comunidades vizinhas, aglomerados junto ao caixão, intencionavam ser retratados com a finada. Depois de fotografados, simbolicamente estariam atrelados eternamente àquele momento sagrado e inesquecível na vida da comunidade.

No momento em que tais fotografias foram elaboradas, encontra-se presente todo um esforço visando perpetuar uma imagem bela do morto. “Entretanto nos dias de hoje, fica nítida uma relativa carga de constrangimento de parte das famílias que possuem em seu acervo tais fotografias. Possivelmente em função de tornar público algo que consideram de teor macabro e, percebido como tabu nos dias de hoje”, relata Sandro Blume.

Sandro Blume, natural de Dois Irmãos, é professor e pesquisador, graduado em História pela Unisinos. Possui especialização em religiões, religiosidade e educação, também pela Unisinos. Contatos com o autor pelo telefone (51) 9989.7146 ou pelo e-mail  Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .

Redação Jornal Correio Riograndense

 

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